BATUCADA

BATUCADA é a nova criação do coreógrafo Marcelo Evelin/Demolition Inc.

Uma intervenção coreográfica para 50 intérpretes e o publico.

Uma coreografia estancada, percussiva, ritmicamente insistente, dinamicamente sonora e corporal, visando conceder de volta ao espaço público o poder simbólico do comum.

Uma Parada Político-Alegórica, um rito urbano, uma procissão civil.

 

BATUCADA é uma intervenção político- alegórica que começa dentro de um teatro, centro cultural ou casa de cultura, onde o publico é convidado para comparecer e se reunir em torno desse acontecimento artístico.

"Batucada" refere-se ao tipo de percussão improvisada usada no samba brasileiro. Pode ser tocada por qualquer um em latas, panelas ou frigideiras, como celebração e/ ou protesto. É uma maneira comum de reunir pessoas e comunidades no Brasil, aberto à participação de todos.

 

 

BATUCADA vai substituir os instrumentos utilizados numa batucada musical, pelo corpo e o movimento, levando em consideração as singularidades de cada participante, e se apoiando nas estruturas rítmicas, no estilo repetitivo e no andamento rápido da música, para  traduzi-las em uma composição coreográfica.

 

BATUCADA é um desfile anti-Olímpico preso/paralisado/travado no tempo e no espaço. Uma espécie de Parada em suspensão, que vai funcionar como uma re- organização de seus movimentos e metas, para recarregar e disseminar, no espaço público ocupado, um poder simbólico participativo e comum. A intervenção coreográfica vai servir para demonstrar, protestar e/ou celebrar a comunidade humana, considerando diversidade e antagonismo como parte essencial de uma revolução democrática. O ritmo transita entre a festa e o protesto num ritual que expõe a relação conflitante entre uma coletividade quase tribal e a subjetividade dos indivíduos. O batucar em objetos cotidianos desmancha fronteiras entre expectador e artista, provocando reflexões sobre a pulsão do homem na sociedade contemporânea.

 

BATUCADA foi concebido para o Kunsten Festival des Arts, um dos principais festivais de arte performática da Europa, realizado em Bruxelas (Bélgica), onde aconteceu sua estreia internacional em maio de 2014.

 

BATUCADA é um rito urbano, uma procissão civil, um desfile alegórico de um circo hipnótico, um carnaval pagão, uma festa bárbara, um protesto mascarado, a explosão de uma revolução interior.

 

 

 

 

BATUCADA is a new project by Marcelo Evelin/Demolition Inc especially created for Kunsten Festival des Arts 2014. The event will include 50 performers and/or citizens from all over the world, a gathering of people of different nationalities, occupations, social classes, ages, genders, races, beliefs and ideals.

 

BATUCADA is an allegoric-political intervention starting on stage at the abandoned Marivaux Cinema in Brussels and overflowing onto the streets of the city, engaging other citizens and redefining the landscape of public space.

 

“Batucada” refers to the percussion ensemble used in samba music. A “batucada” can also be played on pots and pans, in celebration and/or protest. It is a common way of gathering people and communities in Brazil, open to participation by all.

 

In this event the main instruments used in the “batucada” will be the body and the singularities of each participant, as the rhythmical structures, repetitive style and fast pace of the music are translated into a choreographic composition.

 

BATUCADA is an anti-Olympic parade stuck in time and space, in a kind of suspension that operates as a re-organization of its movements and goals, charging the occupied public space with a symbolic power. A parade to demonstrate, to protest and to celebrate the human community, considering diversity and antagonism to be an essential part of democratic revolution.

 

BATUCADA is an urban rite, a civil procession, the allegoric défilé of a hypnotic circus, a pagan carnival, a barbarian feast, a masquerade protest, the bursting out of an inner revolution.

 

 

ficha técnica

 

Concepção, Criação e Direção: Marcelo Evelin

Colaboração artística: Carolina Mendonça e Show Takiguchi

Performado por cidadãos-artistas selecionados convocatória pública

Suporte técnico local: Márcio Nonato

Direção de Produção: Regina Veloso

Assistência de Produção: Gui Fontineles

Realizado por Demolition Inc. + Kunstenfestivaldesarts

 

 

BATUCADA

Rodrigo Garcia 

 

# : ## minutos em um ensaio de Marcelo Evelin em São Paulo

 

# É uma prisão onde habita a liberdade e onde a liberdade se sente livre (sim, você leu bem: o palácio imaginário da liberdade é uma prisão).

# São Paulo inteira é uma prisão de liberdade.

# O prédio onde Marcelo trabalha é uma cela de segurança enfiada na prisão da liberdade que é São Paulo inteira. A chamo de Cela/Arbítrio.

# Está situado no centro da cidade, concretamente em um velho teatro abandonado caindo aos pedaços.

# A prisão aparentemente infinita não é, senão, uma cela ínfima de uma fortaleza de liberdade...

# ... que é o processo polírico de Evelin. Polírico é uma mistura de político/onírico/lírico que acabei de inventar. Temos então vários calabouços, um dentro do outro, como matrioskas, sim, calabouços/matrioskas ou como no filme de Luis Buñuel O discreto charme da burguesia onde aparece um sonho dentro de outro sonho. Aqui são calabouços enfiados em prisões e prisões enfiadas em fortalezas ou se preferir: liberdade aparente dentro de liberdade aparente dentro de um sonho de liberdade.

# É tão grande e infinita a fortaleza, que não dá a impressão de ser um paraíso fechado, delimitado pelos sons da noite próprios do paraíso e seus aromas. E que conste aqui que é um paraíso em todas suas regras.

# Marcelo tem as chaves, mas não as usa porque em São Paulo tudo está quebrado e nada funciona. As portas, se existem, estão desprendidas; as fechaduras, se existiram, deram lugar a buracos nas madeiras verticais agora sem sentido desprovidas de sua função; os vidros foram apedrejados já faz tempo, o ar entra por onde tem vontade; a fumaça, o ruído das vans fazem coreografias engenhosas e Marcelo é uma espécie de xamã, que negocia no meio das insistentes sensações paulistas cotidianas e os espasmos dos intérpretes que o rodeiam. São Paulo é quarenta volumes de antropologia juntos.

# Passei # horas e ## minutos em um calabouço onde todo mundo padece por vontade própria: é a cela da imaginação e do movimento perpétuo e protege os homens do cotidiano quando o cotidiano é vulgar e joga os homens no cotidiano quando a vida corrente precisa de gestos que a resgatem do abismo da rotina (a rotina mal entendida).

# Vi os intérpretes que trabalham com Marcelo Evelin saírem voando pelas janelas de mãos dadas (um se agarrava ao pé de uma mulher, sempre voando, é claro) e voltarem manchados de chocolate, de alegria, de suor, de dentaduras e de lábios e necessidade e desejo.

# Tudo o que tem o universo de Marcelo de celestial tem também de tenebroso. O Éden nas trevas, eu o chamo. É o inferno mais doce que eu pisei nos últimos tempos. Corpos e máscaras se fundem de uma forma tão mal intencionada que não se sabe se se trata de pessoas grudadas a máscaras, ou a máscaras donas dos corpos; quero dizer que o amor é o artifício acima do ser humano: contei duas dezenas de Golem nus encapuzados correndo em círculos, batendo frigideiras de cozinha como idiotas (os idiotas: a raça superior).

# Marcelo Evelin é uma das três encarnações de Pieter Brueghel, o velho, espalhadas agora pelo mundo (tem mais duas: uma em Atlanta USA e outra na Transilvânia); reencarnação de Brueghel, sim, que copiou tantas vezes Hieronymus Bosch. E Marcelo é mais Brughel que Bosch porque o Marcelo gosta – como Brueghel – de espadas.

# Tem espadas voando por cima de todas as cabeças, contei vinte e duas cabeças e vinte e duas espadas, me dizem que ninguém as viu, mas eu as vi, não estavam – me explicam – nas mesas onde se acumulam os objetos que os intérpretes pegam para suas improvisações, não as empunharam, mas eu as vi. Outra vez e como sempre se tratava de espadas incandescentes.

# Vi espadas em chamas nos olhares. E vi corpos sangrarem em desencontros e mal entendidos. Também vi a pele queimar em adeuses.

# A frivolidade não produz tremor. Nenhum sorriso se deve a um descuido. Toda gota de suor tem seu dono. Cuspir é dar a luz e deixar morrer. Toda matéria esta composta de cinquenta por cento de ódio.

 

 

O difícil exercício de ser o outro

Paula Gorini

Seis dias de batucada e um desafio: despir-se de si e deixar que o outro te atravesse. Ser e estar uma alteridade, um outro por vezes radical. Esse outro que te serve como reflexo invertido, como num espelho de Alice, em que se atravessa para além do que se vê por entre molduras. O outro que te atravessa e te revela.

Estranho exercício de deixar a fragilidade virar potência. Potência de sentir, de mover, de se comunicar sem uma única palavra. Apenas no toque, na sensação, no ombro a ombro, lado a lado… no ritmo swingado de corpos suados, pelados, mascarados.

Um despir-se que está muito além do tirar a roupa, mas despir-se de convenções sociais, de medos, de ego. Despir-se num exercício de generosidade, em abrir-se para que o outro te seja, e assim te sendo, você possa também o ser, e o sendo, você descobre também sobre si. Uma negociação constante de limites, de entres, de entrega.

É nessa relação que se constrói a experiência do batucada. De intensa disposição física, emocional, temporal, criativa. De criatividade que está mais ligada ao viver o momento aqui e agora, e menos do inventar algo novo. De um novo que vem da repetição, mesmo um dia nunca sendo igual ao outro. Mas numa repetição comprometida. Com seus próprios desejos e também com todos os outros 49 desejos que se colocam em jogo.

De que intensidade é essa que o batucada nos fala? Será dessa inconstância permanente de ser humano, que está sempre na ânsia de aprender? Ou será de uma ação quase urgente de poder reinventar todos os dias como estar em relação? Como mudar o outro, a partir de uma mudança que se dá primeiro em si? Como se transformar pela reverberação da transformação do outro? Será de uma necessidade de fazer diferente, pensar diferente e poder sentir diferente? E poder reinventar um lugar no mundo em que a escuta e o afeto ainda conjuguem?

Possam ainda existir? Uma pílula de esperança num mundo que se tornou apenas sobre o que eu digo e você tem que escutar, porque se eu estou dizendo então é porque importa!? Mesmo quando se fala de forma surda, e se discursa, onde deveria haver diálogo?

O batucada nos ensina quando mostra que sim, em seis dias podemos nos reinventar, com afeto, com desejo, com diálogo e ir pra rua. A rua pode ser a porta de nossa casa. Uma outra forma de estarmos conosco, com nossos. Ou pode ser a rua do corpo em luta, de corpos juntos que estão tão profundamente engajados, que modificam o ambiente, que movimentam o espaço, que re-existem.

 

O diálogo no corpo traz tanto material que é impossível fingir estar. É preciso estar a cada segundo, estar com toda a intensidade que se é estar em algo. Não com a mente anuviada por posts de facebook, ou com múltiplos devaneios que desconectam mente e corpo e colocam de novo nossas existências em caixinha modernas, em dualidades.

 

Esse corpo batucada é um só, e são vários.

 

E quando termina, um buraco de 50 corpos te toma. De 50 outros, 50 você. Tem aquele que você mal conseguiu se aproximar, mas que lembra o nome e a tatuagem, aquela que você chegou mais perto, e sabe que essa proximidade continuará, um que no começo te assustava e que depois você descobriu ser pura doçura, um que, ao contrário, se transformou de uma aparente abertura, em desafio de aproximação. São todas essas e muitas outras impressões reveladas, recombinadas e relacionadas em cada um desse eus-outros.

 

Não, esse momento ainda não é o de falar, apesar de minha escrita tentar agora formular palavras para dar conta de uma experiência que continuará marcada em minha pele. Esse momento é de sentir esse vazio e ao mesmo tempo essa potência que surge da entrega. Momento de ver e saber que uma pequena multidão pode mover uma multidão maior. Que somos corpos em jogo, em política cotidiana, em relação de afeto e alteridade, de empatia e escuta, de ser e deixar de ser.

 

E podemos assim, ainda, guardar um sopro de amor. Porque a política que precisamos fazer hoje tem urgência de amor. Não o amor romântico construído em novelas de TV. Mas um amor de poder deixar de ser eu, mesmo que só às vezes, e permitir que o outro me atravesse. É desse amor que o batucada também é. O balão em forma de coração é um símbolo compartilhado, a gente apreende rápido seu significado. Mas o amor que é ressignificado, só há um jeito de apreender que é na própria experiência, no exercício. E nunca está acabado.

 


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:: Esse texto foi escrito a partir de uma experiência vivida, uma residência artística e ocupação, “Batucada”, de Marcelo Evelin e Demolition Incorporada. Participei do grupo de 50 pessoas que, ao longo de 6 dias de intenso trabalho, colaborou com o processo de construção do Batucada no Rio de Janeiro. O trabalho foi apresentado no Festival Panorama, nos dias 10, 11 e 12 de novembro de 2016. Esse é um relato pessoal, mas também construído a partir de conversas que tivemos durante o processo. É um texto que traz outras falas, eu acho. Mas que o enfoque é na alteridade, porque esse é o assunto que tem me tomado tempo, afeto, pesquisa… Afeto não apenas no sentido da emoção, mas do que faz mover, do que mobiliza.::

batucada panorama festival

novembro 2016

Andrez Lean Ghizze, Hitomi Nagasu, Rosângela Fagundes Sulidade, Márcio Nonato Macedo Freitas Aviz Rodrigues, Adolfo Severo De Souza Junior, Cleyde Silva Pereira, Joan Eduardo Da Silva, Rafael de Sousa, Vanessa Nunes Soares, Vitor De Sampaio Pereira, Danton Brando Barros Araujo, Victor Guilherme Fontineles De Areia, Fabien Marcil, Erivelto Viana, Daniel Anderson Santos Da Silva, Dora Monteiro Smeke, Gizem Akman, Ana Dubljević, Felix Hammoser, Steff Huber, Katja Kämmerer, Britta Frida Laux, Elisabeth-Marie Leistikow, Marius Miron, Indira Pasko, Jannis Plastargias, Frank Reedom, Alan Twitchell, Drazenka Vecerin, Luca Hillen, Benoit Fasquelle, Anna Catalina Rincon,Celine De vos, Issouf IIboudo, Inez Kaukokanta, Koen Cobbaert

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